O que deveria ser chamado de crime foi tratado como “experimento”. Um corretor de imóveis americano, residente em Santa Catarina, decidiu levar o próprio filho de apenas 13 anos para uma área de mata fechada em Balneário Camboriú, sem comida, sem água e sem qualquer estrutura — tudo para simular um “teste de sobrevivência” inspirado no reality show Largados e Pelados. O resultado? Desaparecimento por cinco dias, resgate em estado de exaustão e uma investigação que, até agora, parece tratar o caso com mais complacência do que rigor.
Segundo a Polícia Civil, o homem improvisou uma barraca com folhas, alimentou-se de maracujá e cactos, e bebeu água de torneiras pelo caminho. O menino foi encontrado faminto, desidratado e visivelmente abalado. Após o resgate, devorou pedaços de bolo e pão como quem não via comida há dias. Isso não é aventura. Isso é negligência. Isso é abuso.
Um pai que deveria proteger, não colocar em risco
A justificativa do pai? “Desintoxicação digital.” Uma desculpa que não se sustenta diante da gravidade do ato. O homem não apenas colocou o filho em perigo iminente — crime previsto no Código Penal — como também abandonou celulares, carro e qualquer possibilidade de comunicação, mergulhando o adolescente em uma situação de vulnerabilidade extrema.
A pena para esse tipo de crime pode chegar a um ano de prisão. Mas, por enquanto, o pai responde em liberdade. O filho foi entregue temporariamente a amigos da família, enquanto o Conselho Tutelar avalia a situação. E o Brasil assiste, mais uma vez, à banalização da irresponsabilidade parental.
Justiça branda, sociedade em alerta
O caso escancara uma falha grave: a falta de punição proporcional para quem expõe menores a riscos absurdos. Não se trata de um erro de julgamento — trata-se de um comportamento criminoso, que deveria ser tratado com o mesmo rigor que se aplica a quem abandona, negligencia ou abusa.
A sociedade precisa reagir. A justiça precisa agir. E os pais precisam entender que criar filhos não é brincar de reality show — é assumir responsabilidade, proteger, educar e garantir segurança.
Marcar uma criança com cinco dias de fome, sede e medo não é experiência de vida. É trauma. E quem provoca isso, deveria estar atrás das grades.


